
Minha neurodivergência me fez mudar de estilo.
Decidi que meu corpo iria decidir a minha vida. Não quero mais forçar a produção a ponto de passar dias em ressaca depois. Quando voltei a desenhar, eu queria realizar um sonho. Não queria mais perseguir o realismo, nem repetir exercícios que passei horas aprendendo. Eu queria ser livre — como dançar na sala num domingo enquanto faço faxina.
Um dia peguei um giz oleoso e rabisquei. No meio do exercício, chorei muito. Era raiva das frustrações que vivi depois de abandonar a dança por causa de uma lesão. Mas aquela liberdade tinha uma sensação estranha: a textura do giz.
Como neurodivergente, aprendi que não importa o que eu faça — sempre serei mais sensível a algumas coisas. E o giz não era uma textura que eu queria sentir todos os dias. É intenso demais para exercícios diários.
A aquarela é perfeita. Mas, como dizem alguns holísticos, mexer com água todos os dias pode ser difícil quando há emoções reprimidas. Eu forcei a aquarela. E chorei também. Dá para ver que eu sou chorona mesmo.
O que eu quero dizer é que todo estilo, todo material, passa pelas sensações, pelo corpo.
Todo artista sabe que a disciplina exige paciência e uma dose diária de estudo. Mas como equilibrar isso com o desejo de liberdade?Desejo? Não. Necessidade.
Para mim, regras e rigidez cognitiva já fazem parte da vida. Eu preciso ficar alerta para não me aprisionar ainda mais.
Por isso acredito que desenvolver um estilo é um processo de soltura gradual. É fluido, mas também precisa fazer sentido no corpo. A mente neurodivergente faz esforço o tempo todo. Então a minha pergunta é: o que eu posso fazer todos os dias que exija menos de mim de forma dolorosa, mas que ainda permita dedicação e atenção?
Foi assim que comecei a reduzir minhas paletas de cor, usar nanquim, repetir linhas, trabalhar espaços e formas mais abstratas. Tentando encontrar um equilíbrio entre o intuitivo e o estruturado — indo contra a rigidez, mas abraçando os processos.